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A pasta azul

  • Foto do escritor: Nina Schubart
    Nina Schubart
  • 12 de fev.
  • 4 min de leitura

Minha mãe tinha uma pasta azul, dessas onde a gente vai arquivando folhas

A4, depois de devidamente perfuradas por um perfurador.

Na pasta azul estavam anotados todos os dados e fatos relevantes da infância

de seus quatro filhos: peso, altura, quando andou, quando falou, troca de

dentes, vacinas, quem teve febre, varicela e cachumba, como evoluiu,

questões alimentares – tudo relacionado à saúde e ao desenvolvimento dos

seus rebentos foi meticulosamente registrado.

Mas o melhor capítulo da pasta eram os “causos”: os comentários engraçados

ou surpreendentemente profundos, os sustos e as situações inesperadas que o

convívio com crianças propicia. Depois que crescemos, de tempos em tempos

nos reuníamos na sala para reler, zoar dos irmãos e relembrar esses episódios

que marcaram nossa infância – ou melhor, a trajetória de Helga e Ernesto

enquanto pais, já que nós não lembrávamos desses eventos, ocorridos em

tempos que precederam nossa memória infantil.

Fui protagonista de um desses “causos” registrados na pasta azul. A pequena

Anja tinha 2,5 anos e ficou brava com a mãe – indignada por ter sido “tratada

injustamente”. Decidiu ir embora de casa, não sem antes anunciar à mãe:

“Quando eu crescer, vou escolher outra avó para os meus filhos!”. Virou as

costas e foi embora. Atravessou o quintal, desceu o morro onde a família

morava, passou pelo portão, atravessou a rua (algo ainda seguro na década de

1960), foi até a primeira esquina e percorreu toda a quadra seguinte, até a

segunda esquina, onde ficava a padaria. Ali terminava seu mundo conhecido.

Pra que lado ir agora? Foi aí que olhou pra trás e viu o pai, que a havia seguido

para ver até onde iria. Correu para o abraço, aliviada.

Essa história me dizia que eu tinha sido, sim, uma garotinha bastante

determinada e bem menos obediente do que eu pensava. Décadas mais tarde,

quando nasceu minha primeira filha, minha mãe me perguntou, com um olhar

tímido e um sorriso: “Você ainda vai escolher outra avó para seus filhos?”.

Meus olhos ficam úmidos, sempre que lembro dessa história. Por dois motivos:

(1) porque escolho minha mãe sempre de novo e (2) porque me encanto com a

sabedoria que meus pais tiveram ao lidar com esta e tantas outras situações ao

longo dos anos em que educaram seu quarteto. Certamente levaram seus

sustos. Certamente tiveram desafios e angústias. Mas sempre houve muito

respeito mútuo na nossa relação, sempre houve espaço para explorar,

questionar, escolher. Sempre houve um abraço para voltar.

Meu pai se foi, há 4 anos atrás. Foi em paz, missão cumprida, cercado pelo

cuidado e carinho da companheira de 62 anos e dos 4 filhos, que lhe são

imensamente gratos por ter sido quem foi: bom ouvinte, aprendiz insaciável,

um homem “desconstruído” antes de inventarem a palavra. Uma referência e

tanto.

Minha mãe? Segue firme e forte. Virou cronista! Aos 93 anos está finalizando

seu terceiro livro de crônicas, cheio de causos que presenciou ao longo da sua

rica vida.

Publicou o primeiro livro aos 80 anos, o segundo aos 90 e o terceiro,

pelo jeito, sai bem antes dos 100. Para a alegria de uns e preocupação de

outros, pois sempre tem algum episódio inédito, que ninguém conhecia.

Lembrei da pasta azul hoje. Eu estava procurando algo na minha caixa de e-

mails e me deparei com uma pasta intitulada “Feedback”: são comentários que

recebi de pessoas que assistiram alguma palestra minha ou leram algum artigo

que escrevi nos idos de 2016...18 – eu escrevia com certa regularidade na

época e ando com saudades deste ritual, deste elo que une quem escreve e

quem lê.

Lembrei porque criei essa pasta: para ser minha boia, meu bote salva-

autoestima para aqueles dias em que aquela vozinha chata diz: você não faz

nada direito, não tem valor, pra que tanto esforço?

Conhece?

Aprendi a importância de criar uma reserva de autoestima, de registros

positivos que me lembrem que, de vez em quando, até que acerto, digo algo

interessante, faço algo útil para alguém, tenho insights que me dão imensa

alegria. Preciso dessa reserva, porque tem dias que o tanque fica vazio, o céu

fica nublado, a alma se sente cinza, sem graça. São os dias em que me julgo,

sou inclemente comigo mesma. Daí não sou justa. Ser justa, com qualquer ser

humano, é reconhecer sua luz e sua sombra, sua força e sua fragilidade, sua

potência e sua limitação.

A pasta azul da minha mãe é até hoje um reservatório de memórias amorosas,

um ativador de risadas, de cumplicidade, de pertencimento.

Minha pasta de e-mails salvos é um dos meus recursos para encontrar energia,

inspiração, aquecer meu coração, ficar animada com a oportunidade que meu

trabalho me dá de aprender, de expandir, de me conectar com pessoas que,

sempre de novo, me lembram que as pessoas são incríveis e a vida é boa.

Você tem uma pasta azul?

Recomendo.

Muito.

Viu? Não resisti à tentação e escrevi.

Me fez bem.

E desejo-lhe bem também.

É assim a vida: a gente vai se contagiando...

Lembrou de alguém a quem você quer bem?

Não deixe passar a vontade: diga ou faça algo que aqueça o coração!


Beijo,

Anja


Anja Kamp

Psicóloga e Terapeuta Familiar

Mentora da Jornada Mães e Pais Confiantes

Aqui você encontra mais conteúdos meus:

Instagram: @anjakamp.psi

 
 
 

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